Diante de tão inesperada mensagem, não sabia o que responder. Esse monstro que mora dentro de mim e do qual tenho um pavor incrível, segundo uma analista que tive, impedia-me de dizer. Doeu demais. Meus dedos travaram, como quando se tem artrose, mas respondi. Ela precisava de uma resposta que a colocasse em seu lugar. A dor, porém, de ter dito passou a se revirar dentro de mim, como se eu tivesse cometido uma falta grave, imperdoável, como se me odiasse por ter conseguido ser eu.
À tarde, era aniversário do André. Fui. A sensação, porém, de carregar um embrulho pesado me acompanhou até lá. Na chegada, apesar de o aniversário ser do André, a Juliana, que não me via desde junho, quando do meu aniversário, me levou um presente que me seria redefinidor: o livro O filho de mil homens, de Valter Hugo Mãe. Não conhecia o autor. Achei o nome esquisito, mas a capa era tão bonita, de um esverdeado sem forma, como uma pintura, que voltei para casa lendo. A primeira página me arrebatou, como se traduzisse as palavras que viviam dentro de mim e não encontravam o movimento necessário na minha língua para se articularem vida.

"Um homem chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter um filho. Chamava-se Crisóstomo.
Estava sozinho, os seus amores haviam falhado e sentia que tudo lhe faltava pela metade, como se tivesse apenas metade dos olhos, metade do peito e metade das pernas, metade da casa e dos talheres, metade dos dias, metade das palavras para se explicar às pessoas."
Eu era ali metade de mim: desejo profundo de liberdade, mas pulsão aguda por gente a quem amar, por estar junto, por uma casa com domingo azul se abrindo na janela, cheiro de comida na cozinha, conforto de uma família na qual eu tivesse de fato um lugar.
Mas eu estava só: longe do meu irmão e da minha mãe, separado da Mariana, saudoso de um pai que só existia como uma memória inventada por mim.
Duas semanas depois, estava eu, numa noite de segunda-feira, na Tijuca, de frente para um homem que só conhecia pela voz: o Cadu. Enquanto a chuva engolia a escuridão que abocanhava o céu naquele 26 de novembro, Cadu dispunha minha vida em dois papéis que ainda guardo, como certidão de um (re)nascimento. Cadu é astrólogo. Naquele dia, me explicava meu mapa natal e minha revolução solar. E ele tocou em pontos duros e silenciosos, pontos que esgarçavam para mim o que eu já sabia, mas preferia não saber.A família foi um desses pontos. Geminiano no sol e na lua, tenho câncer no ascendente, em mercúrio e em marte. Sim, a ligação com a família e com tudo aquilo que diz respeito ao conforto de ser ter uma parede nua para se encostar, tudo isso me invade sem licença. E sim: eu tinha chegado aos 27 anos e assumido para mim a tristeza de não ter um filho, de não ter alguém que me permitisse a reescritura de mim.
(continua...)
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