quarta-feira, 14 de maio de 2014

O umbigo a dilatar.

Natal sempre foi uma data muito importante para mim. Era a época em que eu conseguia ressignificar o chão de terra batida da minha casa e suas paredes corroídas pelo tempo. Não tínhamos pinheiros, bolas, presentinhos, luzes - nada. Papai Noel, então, sequer conhecia os caminhos que levavam ao subúrbio escuro e abafado onde passei minha infância. Mas eu me perdia no sonho de ter uma casa com o telhado todo iluminado, uma árvore grande, com presentes em volta. E, no meu devaneio pueril, inventava para mim um pinheiro feito de papel ofício, estrelas com rabo de retalhos de cortinas e recortadas de chapas de alumínio restantes das obras que meu pai, serralheiro, fazia.

Mas o desejo de ter a casa bordada de brilho não me deixou. Me acompanhou a vida toda. E foi justamente no Natal que Mariana e eu voltamos. O ano de 2012 havia sido muito denso: exigiu-me a coragem de deixar para trás um lar que só existia na infinitude do meu querer. Me separei da minha mãe e do meu irmão e isso doeu muito, de uma dor funda, cujo sentido nenhum vocábulo tem coragem de domar. Deixei para trás o sonho da casa e tudo o que isso implica para um canceriano disfarçado sob as máscara de gêmeos, como eu. Me mudei em julho daquele ano a fim de descrever um caminho novo, só meu, em que eu pudesse dar corpo, agora sim, a minha própria narrativa.

Na semana do dia 18 de dezembro, Mariana e eu voltamos. E com esse reencontro, veio também a pulsão forte e inconsciente - minha e dela - de erguer paredes, rearranjar os móveis e dar novo significado ao que éramos. Queríamo-nos família e isso exigia a delicadeza de um filho. E foi, por nossas contas, nessa semana, que engravidamos, inconscientes de que aquele Natal exigiria para si seu verdadeiro sentido em nossa história. Aquele Natal trouxe (re)nascimento. Foi o Natal que me deu de presente Beatriz e Helena: os dois sorrisos que me engravidam de sim todas as manhãs, quando as vejo em pé no berço, à procura de nós.

"O homem que chegou aos quarenta anos imaginou loucamente o umbigo a dilatar. Imaginou que o umbigo abria muito e que a barriga toda se começara a levantar e a revolver. Tombou sobre si mesmo e achou que sentia o corpo como dividindo-se. Achou que talvez dividisse o corpo por ter dentro de si uma vontade múltipla, um desejo de ser mais do que um só."

MÃE, Valter Hugo. O filho de mil homens.

(continua...)

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