terça-feira, 6 de maio de 2014

Meu filho

Na volta para casa, enquanto tentava me encontrar nos caminhos escuros e molhados da Tijuca, embrenhava-me também em mim, como que procurando nova rota a descrever.

Tinha conquistado uma liberdade, sim. Morava sozinho. Entrar em casa, porém, e perceber que eu não cabia nela, me angustiava ainda mais. Precisava - como alguém que tenta se agarrar à água ao se afogar - de que aquele espaço se vertesse em quartos, varanda, janelas, vozes, abraço, carinho - amor. Precisava legitimar o lugar de pai que eu, levianamente, tomara para mim na minha família. Precisava de um filho, mesmo que de pano, como o do Crisóstomo.

       "Um dia, depois de ter comprado um grande boneco de pano que encontrou à venda numa feira, o Crisóstomo sentou-se no sofá abraçando-o.
       Abraçava o boneco e procurava pensar que seria como um filho de verdade, abanando a cabeça igual a estar a dizer-lhe alguma coisa. Afagava-lhe os cabelos enquanto fantasiava uma longa conversa sobre as coisas mais importantes de aprender. Começava sempre as frases por dizer: sabes, meu filho. Era o que mais queria dizer. Queria dizer meu filho, como se a partir da pronúncia de tais palavras pudesse criar alguém."

O vazio que eu sentia por aquela época me fazia andar pelas ruas, confessando para mim, baixinho, de forma que nem eu mesmo pudesse ouvir: "Meu filho".

Os dias transcorreram à revelia do meu querer e, na semana do Natal, Mariana e eu voltamos.

(continua...)



Nenhum comentário:

Postar um comentário